Julho 8, 2009

Café, Carolina!

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Ela sentou na cadeira externa da cafeteria e abriu seu velho livro empoeirado. Fazia isso todas as tardes. Pedia um café, lia algumas páginas e ficava a observar os pombos pretos que catavam as migalhas na calçada. Às vezes pedia outro café. Ou simplesmente ficava ali, sentada, observando os pombos… numa viagem interna, sem saber muito o que pensar. Gostava quando a calçada estava molhada. E isso era um ritual na vida de Carolina. A cafeteria, o velho livro, os pombos, o pensar em nada… Numa tarde, enquanto pedia o café de olhos abaixados concentrada na leitura que nunca saia das mesmas páginas, ouviu para seu espanto: “A senhorita prefere seu café ao leite, tradicional, descafeinado, espresso, italiano, capuccino, mocha, ou simplesmente puro convencional?” Carolina ergueu o olhar, um atendente muito bem apessoado com o sorriso incomodativamente doce, simpático, cheio de dentes brancos esperando a resposta. Ela não sabia. Estava tão habituada a sentar, pedir um café, receber, beber, passar suas horas sossegadas e ir embora. Nem sabia que tipo de café bebia, na verdade, nem sabia que existiam tantas variedades assim de café no mundo. Queria sossego… café e sossego! “Olha, eu não sei ao certo, venho aqui todas as tardes e bebo o mesmo café, na certa aquele moço no balcão saberá qual é o meu.” – respondeu um tanto constrangida. Não concentrou-se mais no livro e os pombos pretos da calçada… ãh, que pombos?? “Aqui, senhorita. Seu café é o espresso tradicional da casa. Excelente escolha. Esse é apenas para quem sabe apreciar o paladar dos bons cafés. Aproveite! E qualquer coisa não hesite em me chamar, estarei logo ali. Me chamo Marcos. Com licença. ” – deixou a mesa com seu incomodativo sorriso nos lábios e um leve brilho no olhar. “Marcos” – ela pensou. Carolina obteve seu café como queria, porém não mais o sossego. E conta-se que todas as tardes uma moça ali sentava com seu velho livro, só que não mais do lado de fora para observar os pombos da calçada… mas do lado de dentro. E a cada dia um novo pedido: capuccino, café ao leite, descafeinado, italiano, chocolate quente, mocha, vanilla express… E a leitura nunca prosseguia.

Junho 17, 2009

Sinfonia de Helena

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Ela correu apressada para a estação. Olhou para o velho relógio de pulso, suíço autêntico, comprado por dez pratas num brechó, único acessório que realmente usava. Sabia que, ou corria, ou perder-se-ia nos minutos e segundos que a atrasavam. Ah tempo maldito! Por que sua vida era controlada por aqueles ponteiros? Na bem da verdade, aqueles palitinhos móveis a citar o compasso de seus passos, eram seus inimigos! Desceu as escadas afoita e ao chegar ao guichê, uma fila enorme e sinuosa desenrolava-se até o fim do mundo e o fim dos tempos. Quando finalmente chegou sua vez, comprou seu mísero ticket de ida com as moedas já contadas para não perder tempo com troco e nem sorrisos de obrigada. Em passos largos, tal qual uma girafa desengonçada chegou finalmente à plataforma, derrubando sua mochila, desfazendo suas marias-chiquinhas, suada e cansada. O metrô acabara de partir. Desanimada e em total desespero, sentou-se no banco ali da plataforma para esperar o próximo trem. Para seu espanto ouviu um barulho tímido, não sabia bem o quê. Um som clássico e belo começara a ganhar força e a ficar mais e mais alto até que de repente, Helena percebe um aparelho celular ali, do seu lado, esquecido e jogado no banco onde estava sentada. Ela, que no seu Ipod ouvia um alternativo Indie Rock, tira os fones por uns instantes. Bem constrangida por aquele toque clássico que a comove, e que não faz idéia do que possa vir a ser. E a Nona Sinfonia continua a tocar… Tenta fugir, titubeia, mas atende. “Alô” – fala baixo, nervosa e sem graça. Do outro lado ouve-se uma voz grave: “Quem fala?”. “Errr…Helena, mas esse celular não é meu!”“Claro que não, é meu” – é logo interrompida. Alguns minutos (eternos) de silêncio. “Me desculpe, moça. Sou Daniel, estou ligando para meu próprio celular, o esqueci em algum lugar e ligo na esperança de encontrá-lo. Pode me dizer onde o achou”?“Sim, claro. Estou no banco da plataforma do metrô Consolação. Acabei de sentar e o ouvi tocar, atendi por conta da musiquinha esquisita, que me intrigou”“Esquisita? (risos) Então você não aprecia música clássica?”“Não muito. Na verdade não entendo desses lances de arte. É Mozart?”“Bethoven”“Ahhh”. Quinze minutos depois já estava ele lá, para buscar o aparelho. Daniel e Helena. Os olhares se cruzaram. Desde então permanecem no banco lado a lado, fone de ouvido dividido entre os dois. Abraçados. Ouvem atentamente ambas as melodias em total silêncio: Bethoven e o barulho dos trens ao passar pelos trilhos. Ouvem também descompassos de coração. Helena até esquece-se da hora. A música os leva além.

Por Anamaria Moraes

Maio 7, 2009

As Rosas de Carmem

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Ela acorda como todas as manhãs. Depois da rotina tão comum e mecânica de servir café ao marido e filhos vai à garagem onde guarda seus apetrechos. Lá numa estante reservada, estão suas luvas, tesouras, aparadores, regador, adubos e demais objetos. Pega-os com a delicadeza de sempre. Olha para o céu. Azul celeste. Senta-se na grama e ao cantar dos pássaros que fazem sinfonia em seu jardim, começa a aparar os arbustos.
Rega as margaridas. Aduba as árvores frondosas e poda os galhos secos.
Num moisaico de cores entre bromélias, lírios, jasmim, tulipas, amores-perfeitos, camélias, cravos, copos-de-leite e plantinhas estonteantemente verdes, Carmem se vê absorta, totalmente embriagada pelos aromas e texturas, como se ela mesma fosse mais uma das flores que tanto ama. Isso que o paraíso ainda está por vir: As Rosas!
Ah como ama as rosas… tão belas, frágeis, perfeitas. Das rosas cuida com um amor fora do comum, dedica tempo e energia. Mais do que isso. Dedica paixão, vida!
Cuidar de seu jardim e em especial dar amor às rosas é o que faz de Carmem uma pessoa feliz, pois enquanto rega, apara, aduba e conversa com suas “amigas”… Carmem SONHA!
E esses sonhos alimentam sua alma. O jardim é seu mundo secreto. Sua conexão com o Infinito.
Quando o sol se põe ela anda lentamente até a garagem, com tristeza aguda guarda seus aparatos. Entra em casa e sobe para banhar-se.
Logo embrenha-se na cozinha para preparar um assado com ervilhas para o jantar e recebe as crianças com um sorriso carinhoso, ajuda-lhes com a lição. Ouve atenciosamente sobre o árduo dia de trabalho do marido e massageia-lhe os pés. Assite o programa das oito em família, põe os filhos na cama, finge ser uma dona-de-casa convencional.
Nada, absolutamente nada parece fazer sentido nessa vida para Carmem.
Então ela abre a janela e deixa o aroma das rosas entrar…

Por Anamaria Moraes

Abril 6, 2009

A beleza da tragédia!

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Com um pôr-do-sol estonteante e a vista privilegiada, esta ainda era uma tentativa de suicídio.

Frustrada, para o bem de todos!  : )

Daqui: http://www.flickr.com/photos/olhosatentos/3416422738/ 

Indicação do @Canha

Por Ana Vanilla

Março 30, 2009

O Bolo de Chocolate do Menino!

bolo

Dona Julieta preparava o bolo. Entre uma olhadela e outra na receita, separava as claras da gema, batia a manteiga com o açúcar, reservava o pedaço do chocolate para o banho-maria.

 O menino tinha febre, há dias faltava às aulas, não falava com ninguém, trancafiara-se no quarto.

Falaram em viajar para a cidade e passar pelo circo. Falaram em visitar Tia Candinha que morava no Rio de Janeiro. Falaram até em sair dali por algum tempo, só para ver se algo fazia efeito. Nada feito! Desde que chegara do colégio com um olho roxo há duas semanas, deitara na cama, começara a ler Machado de Assis e de lá não saíra para mais nada. O padre Horácio, responsável pelas aulas, fora chamado. Mas o coitado não sabia explicar. Aliás, sua paróquia servia para tudo, até escola.

Dona Julieta e as filhas mais velhas, Mafalda - a criada e Pe. Horácio em suas visitas faziam de tudo para animar o menino. Nada parecia adiantar!

Ele resolvera ficar ali, desolado, sozinho, quieto, sem ser aporrinhado! Até os banhos dona Julieta tinha que implorar para que tomasse, e vez ou outra nem isso conseguia. Comia tão pouco, mas tão pouco que as costelas começavam a aparecer.

- “É dor de amor” – Disse com todo o conhecimento uma das irmãs. – “Na certa brigou por alguma rapariga”.

- Mas ele tem apenas treze anos! - Replicava a preocupada dona Julieta.

- E esses livros, o que contam? – Perguntava a curiosa criada da casa. -”Ah, são todos doloridos”. - “Falam de traição, e de como se sofre por amor”!-  uma ou outra irmã respondia, fazendo com que a miserável ficasse sem entender o porquê alguém em melancolia leria livros que  cantam justamente a… melancolia! Um nó na cabeça de Mafalda. “Vou é esfregar o chão e cuidar da horta que ganho mais”! - pensava consigo mesma, a pobre!

Então um dia que dona Julieta resolve tomar uma atitude. Manda preparar o automóvel e vai até a cidade buscar o melhor chocolate da pequena bomboniere da Vila. Na volta prepara o bolo com todo o empenho com fé de que o menino finalmente se empolgue com algo, pois sabia, essa era uma de suas alegrias! O chocolate, a guloseima preferida… Passa então o dia inteiro em cima de uma receita complicada e demorada, que só se dava ao trabalho nos aniversários. Porém prepara com empenho, na esperança de ver o menino comer com gosto. Já imagina o filho devorando cada fatia, deslumbra os sorrisos e abraços, todos contentes… termina a árdua tarefa e vai para o quarto rezar.

 Volta para a cozinha, eis que vê o Bolo [que havia posto na janela para esfriar] com um corte todo torto, pela metade.

- ”Não pode ser, avisei a todos que não chegassem perto do bolo de Augusto!” – fala para si em voz alta, chocada e estarrecida!

Nesse mesmo momento vê um caminho de barro… segue até a sala onde o caminho se encerra nas botas do marido, Seu Batista, que chegado da lida, todo enporcalhado está a comer vorazmente a grande fatia que cortara do bolo com o próprio facão. Boca lambuzada. Semblante de prazer.

“Ei muié, ainda bem que ocê chegô, venha logo… pegue essas bota suja e tire dus meus pé. Prepare meu banho pra dispois da janta, viu? Discarregue o caminhão que tá cheio di miô pras galinha. Aliás, dispois que ocê discarregá tudo ainda tem os bicho pra dá di cumê, tão na carroceria, us coitadu tão famintu. Mais aintis traga mais desse bolo que é hoje que vô me fartá. Parece que ocê adivinhô qui eu ia chegá hoje né Aurora? Hehehe” – Ria alto enquanto a pança balançava feito gelatina mole e a boca aberta cheia de bolo de chocolate parecia uma poça de lama.

Dona Julieta, num momento de fúria, saca a espingarda que o próprio deixara ao lado do banco da sala e cala aquela risada nojenta com um tiro no peito. O bolo mastigado cai da boca e mistura-se ao sangue.

Pela região ouve-se dizer que depois do ocorrido, o menino superou de imediato a ”dor de amor”, voltara a frequentar as aulas normalmente e nunca mais comera bolo de chocolate.

Por Anamaria Moraes

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Março 7, 2009

Os Laranjas: Sr. Corno e Sra. Bagaça

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Imagem Original: Malaise-de-L-Orange

O Sr. Laranja chega em sua geladeira e encontra as vestes de sua esposa, a Sra. Laranjinha. Desconfiado vai ao departamento de frutas e então, eis o flagra: lá está ela peladinha  em atos suspeitíssimos com o safado do Sr. Banana, vizinho que sempre ouvira falar ser uma fruta de má índole. Quanta decepção! As outras frutas, amigos de longa data do Sr. Laranja logo se comovem e o tentam consolar, em vão! Infelizmente o Sr. Laranja vai para o bar afogar suas mágoas e decepçãoes na bebida. Pensamentos tão aleatórios e desajeitados passam por sua cabeça cítrica. Para ele a vida não faz mais sentido. Os amigos chegam em seguida, argumetam, tentam dizer que é apenas um momento ruim, mas já é tarde demais…

A decisão drástica já havia sido tomada… o pacato Sr. Laranja num ímpeto de frustração e desespero decide acabar com sua própria vida! OH NÃO!  Percebe que ali mesmo no bar há um enorme espremedor de suco e sem que ele mesmo perceba num único segundo, o salto mortal. Se joga, como se pulasse de um abismo:

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Ali, misturado com tantas outras laranjas faladeiras, pulantes e em pânico pela morte certa, Sr. Laranja é apenas mais uma delas, amarelo e redondo: irreconhecível! Mesmo o dono do bar, amigo, não percebe o ocorrido, não há tempo para salva-lo.  A máquina é rápida demais. Seus amigos-fruta, tentam em vão resgata-lo a todo custo em meio àquela população laranjal.

O pior aconteceu.

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Sr. Laranja fora servido naquela noite. Só se sabe que o suco de laranja foi o mais pedido e elogiado pela freguesia. ”Levemente amargo, com um fundo cítrico marcante, sem deixar de ser suave”, estranhamente é o que diziam. 

Houve um funeral in memorian na geladeira, uma semana de luto e uma tristeza geral de toda a população de alimentos que lá vivia. Até os ovos, que têm fama de não ligarem para a vizinhança, andavam meio quietos de semblante sério. Tudo mudara desde a partida do Sr. Laranja.

Quanto a Sra. Laranjinha, ficara sozinha depois que o Sr. Banana fora banido da geladeira. Tentara um flerte com o Sr. Jabuticaba, novato por ali, mas desde que fora advertido, este nunca mais lhe dera liberdades. Por fim, com todos a ignora-la, já não tinha mais para onde ir. Restou-lhe apenas a gaveta das verduras, pior lugar dentro de uma geladeira: pouco refrigerado, úmido, sem espaço. Porém, sem alternativas Sra. Laranjinha mudou-se para lá, local onde acabou criando mofo e jamais conseguira fazer amizade. Uma bagaça!

Por Ana Vanilla.

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Fevereiro 27, 2009

Um pequeno instante de…

VIDA!

Não o deixe escapar.

*

Obrigada Felds pelo vídeo. ;)

*

Carpe Diem!

Carpe diem quam minimum credula postero
Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

;-)

Ana Vanilla

Fevereiro 24, 2009

Te acalma Alma!

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Na busca incessante por calma

me perco nas entranhas inquietas

entrelinhas borbulhantes

turbilhão

estrelas cintilantes

ecoam

em minha alma

 

Mente a girar o mundo

sinto-me cair a esmo

num segundo

sem cessar

escuro…

Buraco sem fundo!

 

Quero adormecer sono profundo,

desligar o botão das inquietudes

o sono de Julieta por dias e noites

 

Ai de mim!

 

Salve-me senhor das trevas pensantes!

Deuses dos burburinhos que tomam o pensar.

enlouquecidamente vos peço clemência

E um pouco de paz.

 

Nesta minha urgência por calma

vou compondo versos inquietos

que galopam em meus verdejantes campos de sonho

 

Enquanto clamo:

 

“Aquieta-te, Alma!”

 

Por Anamaria Moraes

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Fevereiro 17, 2009

Será que temos esse tempo a perder?

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“Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não para…”     
(Paciência – Lenine)

E como o próprio diz na canção, a vida é tão rara. Será que nos damos conta disso? Ou no stress, correria e loucura desenfreada do dia-a-dia nem percebemos que um mundo de pequenas sutilezas e magnitudes  gira ao nosso redor? Para onde foi nossa capacidade de encanto? E nós? Nós somos pequenos universos, grandes milagres… tudo o que precisamos é nos perceber, observar, parar, respirar! Sentir-nos vivos! Há uma demanda de sobrevivência, mas esquecemo-nos que somos humanos, e podemos usufruir a vida com plenitude, prazer, alegria.

Esse vídeo a seguir é interessante pois demonstra exatamente essa despreocupação das pessoas consigo mesmas, ao mesmo tempo acaba sendo um paradoxo, já que foi filmada em slow motion. O tom é profundamente poético. Foi captado anonimamente por uma câmera comum e observa os anônimos deNew York City em seus afazeres diários. Vale parar uns minutinhos  para contemplar o quão caótico e belo pode se tornar uma metrópole em  pleno movimento. Agradeço à Vivian Tiemi pela dica.

 new_york  NYC – Slow Motion  

Nos falta um fazer propositadamente as coisas em “câmera lenta”, ou simplesmente diminuir o ritmo. Nos falta olhar pro céu e ver quando a lua está cheia. Nos falta saber o nome do vizinho e cumprimentá-lo no elevador. Nos falta ter um momento precioso conosco, seja num banho demorado, numa taça de vinho ao final do dia ou na música preferida tomando vento na varanda. Nos falta tanta coisa…

Finalizo com o clipe “Paciência” do Lenine, pois a letra além de linda demais é necessária! Dá vontade de parar tudo e de agora em diante, começar a viver de verdade!

Por Anamaria Moraes

Fevereiro 6, 2009

O Temporal e o Café Amargo

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 Photo:  Tiago Sozo Marcon

Aquela xícara de café espresso transbordava. Transbordava a espuma e as angústias da moça molhada pela chuva. Molhada e arrepiada pelo vento do metrô. Sentia frio. Frio por dentro, um frio escuro,  frio que dói, que atravessa a alma e para nas vísceras.

Perturbada com o movimento das pessoas ao redor, tomou num gole só o café que lhe desceu quente e grosso pela garganta. Queimando a língua, laringe e borbulhante no esôfafo, parou pelando no estômago, quase cuspiu de volta. Mas pensou consigo que merecia aquela dor, que merecia o amargo do café pois assim se sentia: amarga! E a dor da queimadura apenas trazia-lhe à tona sua dor interna. Uma lágrima rolou por sua face.

Esperou a chuva acalmar na esperança de que seus pensamentos em turbilhão acalmassem junto. Ouvia o barulho forte dos pingos batendo no chão, sentia a fúria da água. Sentia sua própria fúria. Os pensamentos tomavam conta, não davam-lhe paz! Queriam sair dela, domar o mundo.

Num rompante, abriu o guarda-chuva torto  pela rajada de vento que enfrentara e encarou o temporal novamente. Foi para debaixo daquela cortina de água avassaladora corajosamente. Sabia que somente isso a libertaria. Molhou-se por inteiro num segundo, chovia aos cântaros. A água batia em sua pele dolorosamente. O vento contra si era tamanho que quase não mantinha os olhos abertos. Num determinado momento, seu guarda-chuva foi engolido pelos céus. Determinada, andou até a estação de metrô e decidiu pegar outro rumo, que não o de casa.

Não sabia exatamente para onde. Fechou os olhos e apontou para um tópico do mapa, seguiu. Entrou no trem enxarcada, pingando. Sem saber ao certo o que estava fazendo e nem seus propósitos, mas preferiu não pensar. O turbilhão em sua mente cessara.

 Sabia apenas que a vida tem suas própria razões, que leva para caminhos desconhecidos por motivos que não se entende. E talvez, o próximo destino lhe reservasse um café menos amargo e uma chuva mais amena.

Por Anamaria Moraes

© Todos os direitos reservados