Outubro 25, 2009

Jantar para Dois

             vinho-coracao

 

               Verônica saiu do pequeno apartamento que dividia com o namorado, era noitinha, mas os pássaros estranhamente piavam, cantarolavam. Sinal de que, a primavera, apesar dos dias cinza, estava ali, em algum lugar.

               Foi ao mercadinho da esquina. Fizera uma lista prévia escrita rapidamente em linhas tortas. Havia se comprometido a comprar apenas aquilo, mas não pôde resistir ao sorvete de passas ao rum, ao vinho frisante, e claro, chocolate amargo, sua perdição maior. A lista ganhou itens aleatórios, saiu mais cara e as sacolas a carregar um pouco além do que Verônica pensara.

                Uma romaria de volta ao apartamento: garrafas tintilando, sacolas pesadas, calor, um esforço brutal. As pessoas na rua a olhavam com certa piedade, era visível a valentia da moça em carregar suas compras. Verônica fala consigo em palavras baixas – eles olham piedosos, mas ajudar que é bom, ninguém!

                Por fim chega ao apartamento, cinco minutos de descanso no sofá. Depois de recomposta, coloca seu cd preferido para tocar, abre o vinho.  Bebericou daquele cálice doce. E então foi até a cozinha onde faria um jantar para dois. Ela e Ricardo haviam brigado, pensaram até em separação. O clima estava tenso. Verônica, em sua inocência piegas, pensara que, nada melhor que um jantarzinho romântico para a reconciliação.

                Primeiramente a cozinha, o mais árduo dos trabalhos. Colocou os filés no forno, bateu as batatas, descascou as peras. Quando tudo estava encaminhado, e a comida cozinhava aromatizando o ambiente, ela foi até a sala. Desembrulhou as margaridas brancas do jornal, colocou-as num vaso de cristal. Ficaram vívidas, deram alegria e suavidade ao ambiente. Então tirou do armário suas velas aromáticas, daquelas que flutuam na água. Encheu algumas taças coloridas e as colocou ali. Estava feito. Perfeito! Mais alguns instantes e a refeição ficaria pronta, também.

         Deixou tudo em fogo baixo e foi para o banho. Um banho relaxante. Usou seus sabonetes orgânicos, óleos de jasmim e lavanda, cremes. Ao terminar aquele banho revigorante, checa novamente a cozinha e desliga o fogo. Volta para o quarto onde se maquia, coloca um vestido bonito, brincos, se perfuma.

          O menu inclui filet ao molho madeira com cogumelos, batatas gratinadas, salada verde e peras assadas ao vinho tinto. Tudo devidamente posto em recipientes bonitos de porcelana. Bebe mais um cálice de seu Merlot e aguarda a chegada de Ricardo.

         Ele chega, fica surpreso por um momento. Dá um sorriso, beija a esposa. Ao sentar-se pede para que desligue a música incomodativa. Observa que o ambiente ficou escuro demais para se comer, apenas com as velas de iluminação. Assim que vai se servir reclama que prefere arroz branco à batatas. Fala que o molho está aguado. No meio da discussão – “Mas eu me matei na cozinha só para te agradar. Você não dá valor a nada que eu faço!” – ele solta um grito, bem alto, típico do Ricardo nervoso e estressado: – “Você chama isso de esforço? E eu que trabalhei o dia todo? Grande coisa um jantarzinho à toa. Grande coisa mesmo!”  

       Verônica se cala, nem ao menos toca na comida, vai para o quarto e chora quieta. Enquanto na sala, Ricardo acende a luz,  joga as velas num canto, enche o prato três vezes gigantescamente, repete a sobremesa. Depois é claro, como todo bom marido, tenta se desculpar.  Vai até a esposa, explica que foi um dia puxado no trabalho, fala do quanto anda sobrecarregado, pede desculpas. Assim que pensa estar tudo bem, vai para sua poltrona e liga a televisão. O programa de entrevistas da noite já vai começar e Ricardo não pode perder.

       Duas da manhã, Ricardo baba e ronca na poltrona. Verônica chega na ponta dos pés, desliga a televisão. Faz movimentos estranhos e caretas inimagináveis, mostra a língua e sussurra palavrões absurdos na frente do marido – um zumbi capotado no vigésimo sono!

     Outra garrafa de vinho, seu cd, o chocolate que comprara e as chaves do carro. Joga tudo no banco ao lado. Pega a estrada. Dirige para longe, até não saber mais onde está. Choro compulsivo.

      Quando as luzes do céu começam a clarear, Verônica avista um gramado, grama alta, mato. Para ali, se acomoda no chão com as costas numa pedra. Deixa a porta do carro aberta, liga o som com a música bem alta, como gosta. Entre mordidas furiosas em seus bombons, abre a garrafa de vinho. Chocolate e vinho. Mato, pedra. Música. Nascer do sol. Solidão. Liberdade.

     Ali, sem eira nem beira, livre do mundo, Verônica  assiste ao sol nascer.

 

Por Anamaria Moraes

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Outubro 15, 2009

Carta ao Sem-Fim

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Quisera eu pegar uma Estrela,
bem assim com os dedos fechados
e guarda-la em minha caixinha de lembranças.

Quisera eu dormir na Lua,
cobrir-me com uma manta bordada de sonhos
e aos cânticos sublimes ecoados pelo vento
adormecer contando cometas!

Quisera eu ir com o Mar,
para bem além de onde amanhece o sol
em minha jangada de giz de cera…

Ahh, quisera eu…

Esconder o Arco-íris no bolso,
Subir todas as Montanhas descalça,
Mergulhar fundo na Neve,
E no tapete de Flores primaveris tirar uma soneca.

Ao acordar teria sobre mim
a imensidão de um Céu de algodão-doce…
E então minhas asas de seda me fariam
borboleta!

Mas cá estou eu,
em mais uma noite de delírios insones.
Noite sem luar,
sem estrelas a iluminar
esse vazio e tolo coração…

Noite sem paixão!

Noite morna e vulgar
como todas as que vivi
nessa minha vida fugaz…

Por Anamaria Moraes

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*

Ilustração Josephine Wall

Outubro 15, 2009

Luares Adormecidos

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Lençois do avesso
Pela cama os sonhos insones
De uma noite toda a ouvir estrelas

Remexendo calmamente
Meu corpo dormente,
Descubro escuro em mim.

Alma vagante
Sentimentos errantes

Insônia voraz!

Dóem os músculos,
a carne, a pele,
as víceras.

Tudo dói.
Tudo sinto.

Manhã de sol reluzente
Exploda-se o mundo!

Quero dias cinzas e conversas tolas,
Quero sonhos bizarros,
quero café amargo,
quero um afago!
E ao deitar, quero sono profundo
a noite inteira…

Por Anamaria Moraes

© Todos os direitos reservados

*

Ilustração Josephine Wall

Setembro 24, 2009

Carta para Oscar Wilde

Meu querido!
Recebi sua carta em um anoitecer sinuoso. O céu de chocolate chupava as luzes da cidade e rompia a escuridão tecida em sabores pratas. Deslizantes. Quase que escorregava.
Meu encantamento não foi surpresa alguma para os pássaros que corriam apressados aos ninhos. Eles sabem!
Os pássaros vem sendo testemunhas de minhas pequenas insanidades. E não calam. Os piares entre si duram manhãs e tardes a passar das horas. Bem o sei que tagarelam. Não ligo! Enquanto cantarem em minha glória, estarei viva e pulsante.
Ah sim, as amoras. Que bom ter notícias delas. Tenho sonhado com amoras primaveris. Turvas e embaçantes nos meus sonhos púrpuras. Aquele doce cheiro embriagante dos pequenos gomos de areia a desmantelarem-se entre os dentes.
Um segredo: dentes desejam amoras tresloucada e descontroladamente; línguas deliram em pensamentos de luxúria ao vê-las tão aveduladas e majestosas. O ímpeto de tê-las na boca é  surreal e avassalador. Bocas desejosas, ansiosas e pecadoras.
Bocas! Bocas, línguas e dentes. Avise as amoras para tomarem cuidado!
E vem Outubro. Numa tarde vestida de amarelo abre as saias de folhas outonais que já se foram, não pertencem mais ao cenário. Mas insistem em ficar ali. Secas e pálidas elas ficam. O tecido de seda amarelo as leva para longe deixando pequenas flores. Colorem. Perfumam!
O sol queima. As àrvores são amigas. E o céu se faz de algodão. Dá para conversar com as árvores alegres e quase que se pode comer o céu. A grama faceira faz cócegas nos pés de quem ali passa.
Dessa tarde em diante, as amoras reinam soberanas. Um roxo púrpura sobressai em meio a cores vívidas de gostos floridos e aromas de veludo.
Nós mortais, presos em egos, apenas sentimos que aquilo tudo tão perfeito, não condiz.

V.B.

Por Anamaria Moraes

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Setembro 1, 2009

Sonetos Mudos

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Que a noite perca o encanto,

que a poesia vire pranto
que o sonho adormeça

que meu jardim nenhuma borboleta mereça
Que teus pés congelem sem minha companhia
que teu sol não venha clarear meu dia
nem os pardais cantarolem doce sinfonia.

Que tudo isso aconteça!

que de trevas minha estrela escureça…

Se desertifiquem oceanos e campos!

E a infinita dor de meu universo se engrandeça…

Não fará diferença.

Recito versos,
não há quem ouça.

Morri em mim
ninguém trouxe flores.

Por Anamaria Moraes

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Fotografia: Zena Holloway

Agosto 31, 2009

Becos da Vida

Foto: Olhares

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Elvira. Mulher batalhadora, mãe de duas meninas. Todo dia acorda cedo, prepara o café e o lanche das crianças, as leva para a escola, limpa a casa, paga as contas em dia. É simpática, sorridente, faz amigos por onde passa.
Seu maior sonho é proporcionar o estudo das filhas e terminar seus próprios estudos que ficaram abandonados lá na distante infância pobre. Ahh… e ter um lar! – Vivem numa casinha muito velha, em condições precárias, alugada por uma senhora rabugenta. Elvira sonha com uma casa grande, um quarto somente das filhas, um quintal…
De tardinha, ajuda as meninas com a lição, brincam um pouco. Então ela faz o jantar, conta uma história de conto-de-fadas e as coloca na cama. É quando chega a vizinha amiga para passar a noite com as crianças. Toda noite!
Então, Elvira vai trabalhar.
Arruma-se. Perfuma-se. Mini-saia, decote profundo, batom vermelho.
E vai pracalada da noite. É nas esquinas da vida e nos becos do acaso, quando os carros param para admirar seu corpo e pagar seu preço, que Elvira se deixa conhecer por Sharon.
(…)
Nem todas as “Sharons” são uma “Elvira”, mas muitas Elviras existem no meio das Sharons mundo afora.
Elvira, Valente!

 
Por Anamaria Moraes
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Agosto 14, 2009

Tempestade Urbana

guarda-chuva

Chovia pingos doloridos a machucar seus ombros e quanto mais ela corria para se esconder nas marquises mais molhada ficava. Os óculos embaçavam. Seus livros e cadernos protegidos apenas pela jaqueta jeans já úmida, encharcados. Ainda faltavam algumas quadras para o ponto de ônibus. Ao correr para a próxima marquise, um senhor envolto numa capa de chuva amarelo-gema gritava em alto e bom som: “Guarda-chuva… Guarda-chuva… É só cinco real” Leila abordou o senhor e num desejo desvairado e raivoso quase ensinou-lhe o plural esganando aquela garganta rouca a gritar tão pavoroso português. Conteve-se. Apenas o guarda-chuva quase descartável lhe interessava. Sabia que em uma chuva torrencial, ou mesmo num torozinho desses de fim de tarde, se arriscasse usá-lo o perigo de que ganhasse os céus era certo. Entre o desespero e o desperdício, equilibrando os cadernos, puxou a mochila para procurar a bendita nota de cinco reais. Pingos caíam do toldo diretamente sobre sua cabeça escorrendo pela nuca. Apavorada de raiva, nojo e ódio do mundo achou logo o dinheiro. Abriu o guarda-chuva e saiu dali. “Cinco malditos reais por algumas quadras. Desperdício!” – resmungava. Molhada e mal-humorada, andava a passos largos, apressada para chegar ao ponto, a fim de não perder seu ônibus. Ao chegar, a irritação era tanta que mal deu passagem à velhinha que entrou depois dela no ônibus. O guarda-chuva molhado emperrou, não queria fechar. Os cadernos caíram. Leila não achava suas moedas para pagar a passagem. Tudo ao mesmo tempo. Quando se refez prendendo o cabelo amassado entre braços de livros, cadernos molhados e gaurda-chuva aberto, subiu o olhar… viu um sorriso. “Você fica muito bonita com essa raiva toda”. “E você deve dizer isso para todas as moças que entram aqui em dia de chuva.” Ele continuou sorrindo, ela atrapalhada catava as moedas para a passagem. Passou pela catraca, sentou-se. “Cobrador atrevido.” – pensou um tanto indignada, outro tanto instigada. Com tanta confusão não demorou para que chegasse em seu destino. Ele acompanhou rindo enquanto a moça bonita, molhada e atrapalhada atravessava o corredor com seu guarda-chuva aberto a cutucar as cabeças de quem estava sentado. “Desculpe.” – “Desculpe.” – “Foi sem querer.” – “Perdão.” – ia dizendo de um a um. Quando chegou na porta de saída olhou para trás e viu que ele sorria, não dela mas para ela! Foi quando retribuiu o sorriso. Desceu… veio um vento do norte, do sul, do fim do mundo… sabe-se lá de onde, só que esse vento voraz engoliu o guarda-chuva. Ela olhou para todos os lados, sumiu. Com os cabelos voando e o mundo girando, virou-se e olhou para o ônibus que ia partindo. Da janela ele gritou: – Preciso saber seu nome! – Leila – gritou ainda mais alto para que ouvisse. – Ainda nos veremos Leila, pode apostar! O vento ficou mais forte e o ônibus partiu…

Por Anamaria Moraes

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Julho 8, 2009

Café, Carolina!

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Ela sentou na cadeira externa da cafeteria e abriu seu velho livro empoeirado. Fazia isso todas as tardes. Pedia um café, lia algumas páginas e ficava a observar os pombos pretos que catavam as migalhas na calçada. Às vezes pedia outro café. Ou simplesmente ficava ali, sentada, observando os pombos… numa viagem interna, sem saber muito o que pensar. Gostava quando a calçada estava molhada. E isso era um ritual na vida de Carolina. A cafeteria, o velho livro, os pombos, o pensar em nada… Numa tarde, enquanto pedia o café de olhos abaixados concentrada na leitura que nunca saia das mesmas páginas, ouviu para seu espanto: “A senhorita prefere seu café ao leite, tradicional, descafeinado, espresso, italiano, capuccino, mocha, ou simplesmente puro convencional?” Carolina ergueu o olhar, um atendente muito bem apessoado com o sorriso incomodativamente doce, simpático, cheio de dentes brancos esperando a resposta. Ela não sabia. Estava tão habituada a sentar, pedir um café, receber, beber, passar suas horas sossegadas e ir embora. Nem sabia que tipo de café bebia, na verdade, nem sabia que existiam tantas variedades assim de café no mundo. Queria sossego… café e sossego! “Olha, eu não sei ao certo, venho aqui todas as tardes e bebo o mesmo café, na certa aquele moço no balcão saberá qual é o meu.” – respondeu um tanto constrangida. Não concentrou-se mais no livro e os pombos pretos da calçada… ãh, que pombos?? “Aqui, senhorita. Seu café é o espresso tradicional da casa. Excelente escolha. Esse é apenas para quem sabe apreciar o paladar dos bons cafés. Aproveite! E qualquer coisa não hesite em me chamar, estarei logo ali. Me chamo Marcos. Com licença. ” – deixou a mesa com seu incomodativo sorriso nos lábios e um leve brilho no olhar. “Marcos” – ela pensou. Carolina obteve seu café como queria, porém não mais o sossego. E conta-se que todas as tardes uma moça ali sentava com seu velho livro, só que não mais do lado de fora para observar os pombos da calçada… mas do lado de dentro. E a cada dia um novo pedido: capuccino, café ao leite, descafeinado, italiano, chocolate quente, mocha, vanilla express… E a leitura nunca prosseguia.

Por Anamaria Moraes

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Junho 17, 2009

Sinfonia de Helena

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Ela correu apressada para a estação. Olhou para o velho relógio de pulso, suíço autêntico, comprado por dez pratas num brechó, único acessório que realmente usava. Sabia que, ou corria, ou perder-se-ia nos minutos e segundos que a atrasavam. Ah tempo maldito! Por que sua vida era controlada por aqueles ponteiros? Na bem da verdade, aqueles palitinhos móveis a citar o compasso de seus passos, eram seus inimigos! Desceu as escadas afoita e ao chegar ao guichê, uma fila enorme e sinuosa desenrolava-se até o fim do mundo e o fim dos tempos. Quando finalmente chegou sua vez, comprou seu mísero ticket de ida com as moedas já contadas para não perder tempo com troco e nem sorrisos de obrigada. Em passos largos, tal qual uma girafa desengonçada chegou finalmente à plataforma, derrubando sua mochila, desfazendo suas marias-chiquinhas, suada e cansada. O metrô acabara de partir. Desanimada e em total desespero, sentou-se no banco ali da plataforma para esperar o próximo trem. Para seu espanto ouviu um barulho tímido, não sabia bem o quê. Um som clássico e belo começara a ganhar força e a ficar mais e mais alto até que de repente, Helena percebe um aparelho celular ali, do seu lado, esquecido e jogado no banco onde estava sentada. Ela, que no seu Ipod ouvia um alternativo Indie Rock, tira os fones por uns instantes. Bem constrangida por aquele toque clássico que a comove, e que não faz idéia do que possa vir a ser. E a Nona Sinfonia continua a tocar… Tenta fugir, titubeia, mas atende. “Alô” – fala baixo, nervosa e sem graça. Do outro lado ouve-se uma voz grave: “Quem fala?”. “Errr…Helena, mas esse celular não é meu!”“Claro que não, é meu” – é logo interrompida. Alguns minutos (eternos) de silêncio. “Me desculpe, moça. Sou Daniel, estou ligando para meu próprio celular, o esqueci em algum lugar e ligo na esperança de encontrá-lo. Pode me dizer onde o achou”?“Sim, claro. Estou no banco da plataforma do metrô Consolação. Acabei de sentar e o ouvi tocar, atendi por conta da musiquinha esquisita, que me intrigou”“Esquisita? (risos) Então você não aprecia música clássica?”“Não muito. Na verdade não entendo desses lances de arte. É Mozart?”“Bethoven”“Ahhh”. Quinze minutos depois já estava ele lá, para buscar o aparelho. Daniel e Helena. Os olhares se cruzaram. Desde então permanecem no banco lado a lado, fone de ouvido dividido entre os dois. Abraçados. Ouvem atentamente ambas as melodias em total silêncio: Bethoven e o barulho dos trens ao passar pelos trilhos. Ouvem também descompassos de coração. Helena até esquece-se da hora. A música os leva além.

Por Anamaria Moraes

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Maio 7, 2009

As Rosas de Carmem

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Ela acorda como todas as manhãs. Depois da rotina tão comum e mecânica de servir café ao marido e filhos vai à garagem onde guarda seus apetrechos. Lá numa estante reservada, estão suas luvas, tesouras, aparadores, regador, adubos e demais objetos. Pega-os com a delicadeza de sempre. Olha para o céu. Azul celeste. Senta-se na grama e ao cantar dos pássaros que fazem sinfonia em seu jardim, começa a aparar os arbustos.
Rega as margaridas. Aduba as árvores frondosas e poda os galhos secos.
Num moisaico de cores entre bromélias, lírios, jasmim, tulipas, amores-perfeitos, camélias, cravos, copos-de-leite e plantinhas estonteantemente verdes, Carmem se vê absorta, totalmente embriagada pelos aromas e texturas, como se ela mesma fosse mais uma das flores que tanto ama. Isso que o paraíso ainda está por vir: As Rosas!
Ah como ama as rosas… tão belas, frágeis, perfeitas. Das rosas cuida com um amor fora do comum, dedica tempo e energia. Mais do que isso. Dedica paixão, vida!
Cuidar de seu jardim e em especial dar amor às rosas é o que faz de Carmem uma pessoa feliz, pois enquanto rega, apara, aduba e conversa com suas “amigas”… Carmem SONHA!
E esses sonhos alimentam sua alma. O jardim é seu mundo secreto. Sua conexão com o Infinito.
Quando o sol se põe ela anda lentamente até a garagem, com tristeza aguda guarda seus aparatos. Entra em casa e sobe para banhar-se.
Logo embrenha-se na cozinha para preparar um assado com ervilhas para o jantar e recebe as crianças com um sorriso carinhoso, ajuda-lhes com a lição. Ouve atenciosamente sobre o árduo dia de trabalho do marido e massageia-lhe os pés. Assite o programa das oito em família, põe os filhos na cama, finge ser uma dona-de-casa convencional.
Nada, absolutamente nada parece fazer sentido nessa vida para Carmem.
Então ela abre a janela e deixa o aroma das rosas entrar…

Por Anamaria Moraes

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