
Verônica saiu do pequeno apartamento que dividia com o namorado, era noitinha, mas os pássaros estranhamente piavam, cantarolavam. Sinal de que, a primavera, apesar dos dias cinza, estava ali, em algum lugar.
Foi ao mercadinho da esquina. Fizera uma lista prévia escrita rapidamente em linhas tortas. Havia se comprometido a comprar apenas aquilo, mas não pôde resistir ao sorvete de passas ao rum, ao vinho frisante, e claro, chocolate amargo, sua perdição maior. A lista ganhou itens aleatórios, saiu mais cara e as sacolas a carregar um pouco além do que Verônica pensara.
Uma romaria de volta ao apartamento: garrafas tintilando, sacolas pesadas, calor, um esforço brutal. As pessoas na rua a olhavam com certa piedade, era visível a valentia da moça em carregar suas compras. Verônica fala consigo em palavras baixas – eles olham piedosos, mas ajudar que é bom, ninguém! –
Por fim chega ao apartamento, cinco minutos de descanso no sofá. Depois de recomposta, coloca seu cd preferido para tocar, abre o vinho. Bebericou daquele cálice doce. E então foi até a cozinha onde faria um jantar para dois. Ela e Ricardo haviam brigado, pensaram até em separação. O clima estava tenso. Verônica, em sua inocência piegas, pensara que, nada melhor que um jantarzinho romântico para a reconciliação.
Primeiramente a cozinha, o mais árduo dos trabalhos. Colocou os filés no forno, bateu as batatas, descascou as peras. Quando tudo estava encaminhado, e a comida cozinhava aromatizando o ambiente, ela foi até a sala. Desembrulhou as margaridas brancas do jornal, colocou-as num vaso de cristal. Ficaram vívidas, deram alegria e suavidade ao ambiente. Então tirou do armário suas velas aromáticas, daquelas que flutuam na água. Encheu algumas taças coloridas e as colocou ali. Estava feito. Perfeito! Mais alguns instantes e a refeição ficaria pronta, também.
Deixou tudo em fogo baixo e foi para o banho. Um banho relaxante. Usou seus sabonetes orgânicos, óleos de jasmim e lavanda, cremes. Ao terminar aquele banho revigorante, checa novamente a cozinha e desliga o fogo. Volta para o quarto onde se maquia, coloca um vestido bonito, brincos, se perfuma.
O menu inclui filet ao molho madeira com cogumelos, batatas gratinadas, salada verde e peras assadas ao vinho tinto. Tudo devidamente posto em recipientes bonitos de porcelana. Bebe mais um cálice de seu Merlot e aguarda a chegada de Ricardo.
Ele chega, fica surpreso por um momento. Dá um sorriso, beija a esposa. Ao sentar-se pede para que desligue a música incomodativa. Observa que o ambiente ficou escuro demais para se comer, apenas com as velas de iluminação. Assim que vai se servir reclama que prefere arroz branco à batatas. Fala que o molho está aguado. No meio da discussão – “Mas eu me matei na cozinha só para te agradar. Você não dá valor a nada que eu faço!” – ele solta um grito, bem alto, típico do Ricardo nervoso e estressado: – “Você chama isso de esforço? E eu que trabalhei o dia todo? Grande coisa um jantarzinho à toa. Grande coisa mesmo!”
Verônica se cala, nem ao menos toca na comida, vai para o quarto e chora quieta. Enquanto na sala, Ricardo acende a luz, joga as velas num canto, enche o prato três vezes gigantescamente, repete a sobremesa. Depois é claro, como todo bom marido, tenta se desculpar. Vai até a esposa, explica que foi um dia puxado no trabalho, fala do quanto anda sobrecarregado, pede desculpas. Assim que pensa estar tudo bem, vai para sua poltrona e liga a televisão. O programa de entrevistas da noite já vai começar e Ricardo não pode perder.
Duas da manhã, Ricardo baba e ronca na poltrona. Verônica chega na ponta dos pés, desliga a televisão. Faz movimentos estranhos e caretas inimagináveis, mostra a língua e sussurra palavrões absurdos na frente do marido – um zumbi capotado no vigésimo sono!
Outra garrafa de vinho, seu cd, o chocolate que comprara e as chaves do carro. Joga tudo no banco ao lado. Pega a estrada. Dirige para longe, até não saber mais onde está. Choro compulsivo.
Quando as luzes do céu começam a clarear, Verônica avista um gramado, grama alta, mato. Para ali, se acomoda no chão com as costas numa pedra. Deixa a porta do carro aberta, liga o som com a música bem alta, como gosta. Entre mordidas furiosas em seus bombons, abre a garrafa de vinho. Chocolate e vinho. Mato, pedra. Música. Nascer do sol. Solidão. Liberdade.
Ali, sem eira nem beira, livre do mundo, Verônica assiste ao sol nascer.
Por Anamaria Moraes
© Todos os direitos reservados







