
Ilustração: Victor Salciotti
Era setembro de 2004 quando ela chegou na rodoviária do Tiête. Na mala, suas roupas, alguns livros relidos, cds antigos, uma carta da mãe e sonhos, muitos!
Uma Santa para proteção. Saiu do ônibus e assustou-se com aquele oceano de gente, talvez ali existissem mais pessoas que na ciadezinha de onde viera e deixara para trás. Confusa, foi até o orelhão mais próximo e ligou para que o namorado viesse buscá-la, mas não conseguia completar a ligação. Naquele vai e vem de gente com sacola na cabeça, criança no colo, mochilas, mudanças inteiras…pessoas de todos os tipos, etnias, cores, asustou-se e começou a chorar. Um choro sentido, doído. Como se a rodoviária a engolisse. E por eternos 40 minutos esperou e esperou. Viu a frieza longínqua no olhar vazio dos que passavam por ela. Poucos a olhavam e percebiam suas lágrimas. Um único senhor parou e ofereceu ajuda, ela se acalmou por um instante.
Pensou que tudo estava perdido, pois de tão tola nem anotara o endereço do namorado, então aquele senhor de boa vontade, sem mais o que fazer foi embora. E ela continuou seu pranto solitário. Quanrenta e cinco minutos exatos de solidão, medo, desespero e agonia. Quando avista o namorado. O abraça forte, porém com raiva: “Por que você fez isso comigo?”
Ele lhe explica que as coisas ali naquela cidade enorme eram assim mesmo: demoradas, cheias de gente, tumultuadas… que aquele, fora o tempo dele tomar o metrô! Novidade para ela que jamais vira um trem subterrâneo ultra-rápido transbordante de seres humanos amontoados. E depois prédios, um mar de prédios. E mais gente, e mais prédios! Demorou para que ela entendesse o que era São Paulo.
Viera duma cidadezinha de interior, lá no Sul do país onde se vai à missa todo domingo na única igrejinha da cidade e se ouve o ecoar do sino a cada hora. Almoça-se ao meio-dia em ponto todos os dias da semana e se passeia pela pracinha aos sábados. Cumprimenta-se o Sr. João da Farmácia, o Antônio da padaria, a Márcia da verdureira. E todos dizem bom-dia quando abrem suas janelas floridas pela manhã.
Ela demorou para se adaptar, muito! Ficou deprimida, teve essas crises de pânico e medo de sair do apartamento. Hoje, quase cinco anos depois, já entende melhor que “bicho” é esse chamado Sampa e até se vira bem por aí: trabalha, faz seus cursos, anda pra lá e pra cá! O metrô virou seu meio de transporte: rápido e prático. Adora as comodidades e facilidades que a cidade grande oferece e se esbalda nos eventos culturais, sua paixão. E nem se incomoda de ir sozinha aos museus/cinema/exposições de que tanto gosta.
Visita sua família no interior sempre que pode, mas se alguém lhe perguntar se ela quer voltar… ahh provavelmente a garota dessa história vai dizer que a metrópole lhe deu asas…e ela está aprendendo a voar.
Pra bem longe…
Por Anamaria Moraes.
© Todos os direitos reservados
6 Comentários
Janeiro 25, 2009 às 9:10 am
Tive sorte ou azar de nascer aqui. Sou macaco velho de cidade grande, com sua velocidade e seus gargalos. Distoante, não?
E é assim que a cidade mais nos marca. Todas suas contradições, diversidades. As ilhas de tranquilidade entre dois fones de ouvido em meio ao mais absoluto caos.
Triste que nem todos nós, nativos, percebamos o que temos a nossa volta como vocês, que ainda aprendem a respirar este ar diferente (literalmente).
Só não esqueça o caminho de volta por entre estes voos todos que estará tudo certo.
Abraços, Vanillinha.
Janeiro 25, 2009 às 7:13 pm
Aprimorando cada vez mais o seu dom. Sou muito orgulhosa da irmã que tenho!
saudades e amo vc!
Janeiro 25, 2009 às 7:17 pm
É… também sofri muito tentando me adaptar em Sampa, e confesso que até hoje ainda me perco muito… Gosto pois aqui é um lugar que ao mesmo tempo que temos que ficar “presos” temos toda a liberdade que queremos, temos vida 24 hr por dia…. Infelizmente muitas pessoas não sabem como lidar com essa liberdade, mas conforme o tempo passa vamos aprendendo…
Se tenho vontade de voltar pro meu interior???? Se tenho… não sei se me acostumaria novamente, mas que dá vontade de sair dessa loucura isso dá…
O bom de Sampa ~e que temos de tudo numa única metrópole… diversão para todos os gostos e idades… afinal, Sampa é do mundo… uma mescla que não tem igual, temos desde nortistas a japoneses…. passando por todo mundo que está entre os continentes…
Quem vem a Sampa se apaixona… se acostuma… e ama…
Janeiro 25, 2009 às 7:17 pm
Q lindo S2
Eu nasci em Sampa e por vezes me sinto presa a esse único lugar…. queria poder voar para longe assim como conseguiu de fato porém aqui..
Bjs se cuida
:: Loma
Janeiro 25, 2009 às 8:26 pm
Hum. Gostei. Você está escrevendo melhor que antes, na minha humilde opinião. Gostei do ritmo do texto. E o blog tá cheirosinho.
Parabéns!
Janeiro 27, 2009 às 9:28 pm
bah… que saudade que eu tava de ler tuas coisas…. achei que esse texto tem um gostinho doce de novidade…. adorei! (como sempre neh)
bjinhus