Fevereiro 6, 2009...9:04 pm

O Temporal e o Café Amargo

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umbrella

 Photo:  Tiago Sozo Marcon

Aquela xícara de café espresso transbordava. Transbordava a espuma e as angústias da moça molhada pela chuva. Molhada e arrepiada pelo vento do metrô. Sentia frio. Frio por dentro, um frio escuro,  frio que dói, que atravessa a alma e para nas vísceras.

Perturbada com o movimento das pessoas ao redor, tomou num gole só o café que lhe desceu quente e grosso pela garganta. Queimando a língua, laringe e borbulhante no esôfafo, parou pelando no estômago, quase cuspiu de volta. Mas pensou consigo que merecia aquela dor, que merecia o amargo do café pois assim se sentia: amarga! E a dor da queimadura apenas trazia-lhe à tona sua dor interna. Uma lágrima rolou por sua face.

Esperou a chuva acalmar na esperança de que seus pensamentos em turbilhão acalmassem junto. Ouvia o barulho forte dos pingos batendo no chão, sentia a fúria da água. Sentia sua própria fúria. Os pensamentos tomavam conta, não davam-lhe paz! Queriam sair dela, domar o mundo.

Num rompante, abriu o guarda-chuva torto  pela rajada de vento que enfrentara e encarou o temporal novamente. Foi para debaixo daquela cortina de água avassaladora corajosamente. Sabia que somente isso a libertaria. Molhou-se por inteiro num segundo, chovia aos cântaros. A água batia em sua pele dolorosamente. O vento contra si era tamanho que quase não mantinha os olhos abertos. Num determinado momento, seu guarda-chuva foi engolido pelos céus. Determinada, andou até a estação de metrô e decidiu pegar outro rumo, que não o de casa.

Não sabia exatamente para onde. Fechou os olhos e apontou para um tópico do mapa, seguiu. Entrou no trem enxarcada, pingando. Sem saber ao certo o que estava fazendo e nem seus propósitos, mas preferiu não pensar. O turbilhão em sua mente cessara.

 Sabia apenas que a vida tem suas própria razões, que leva para caminhos desconhecidos por motivos que não se entende. E talvez, o próximo destino lhe reservasse um café menos amargo e uma chuva mais amena.

Por Anamaria Moraes

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