Março 30, 2009...11:21 pm

O bolo de chocolate

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bolo

Dona Julieta preparava o bolo. Entre uma olhadela e outra na receita, separava as claras da gema, batia a manteiga com o açúcar, reservava o pedaço do chocolate para o banho-maria.

O menino tinha febre, há dias faltava às aulas, não falava com ninguém, trancafiara-se no quarto.

Falaram em viajar para a cidade e passar pelo circo. Falaram em visitar Tia Candinha que morava no Rio de Janeiro. Falaram até em sair dali por algum tempo, só para ver se algo fazia efeito. Nada feito! Desde que chegara do colégio com um olho roxo há duas semanas, deitara na cama, começara a ler Machado de Assis e de lá não saíra para mais nada. O padre Horácio, responsável pelas aulas, fora chamado. Mas o coitado não sabia explicar. Aliás, sua paróquia servia para tudo, até escola.

Dona Julieta e as filhas mais velhas, Mafalda - a criada  e Pe. Horácio faziam de tudo para animar o menino. Nada adiantava!

Ele resolvera ficar ali, desolado, sozinho, quieto, sem ser aporrinhado! Até os banhos dona Julieta implorava para que tomasse, e vez ou outra nem isso ele fazia. Comia tão pouco, mas tão pouco que as costelas começavam a aparecer.

- “É dor de amor” – Disse com todo o conhecimento uma das irmãs. – “Na certa brigou por alguma rapariga”.

- Mas ele tem apenas treze anos! - Replicava a preocupada dona Julieta.

- E esses livros, o que contam? – Perguntava a curiosa criada da casa. -”Ah, são todos doloridos”. - “Falam de traição, e de como se sofre por amor”!- uma ou outra irmã respondia, fazendo com que a miserável ficasse sem entender o porquê alguém em melancolia leria livros que  cantam justamente a… melancolia! Um nó na cabeça de Mafalda. “Vou é esfregar o chão e cuidar da horta que ganho mais”! - pensava consigo mesma, a pobre!

Eis que dona Julieta resolve tomar uma atitude. Manda preparar o automóvel e vai até a cidade buscar o melhor chocolate da pequena bomboniere da Vila. Na volta prepara o bolo com todo o empenho com fé de que o menino finalmente se empolgue com algo, pois sabia, essa era uma de suas alegrias! O chocolate, a guloseima preferida…

Acende uma vela a Santa Rita e durante toda a tarde desenrola aquela receita complicada e demorada. O bolo, esse de chocolate, só se dava ao trabalho nos aniversários. dos filhos.  Porém, a fim de ‘adoçar’  os dias tristes de seu filho, dona Julieta prepara com empenho. Eperança de ver seu menino comer com gosto. Já o imagina devorando uma enorme fatia, deslumbra os sorrisos e abraços, todos contentes… termina a árdua tarefa e vai para o quarto rezar.

Volta para a cozinha, eis que vê o Bolo [que havia posto na janela para esfriar] com um corte todo torto, pela metade.

- “Não pode ser, avisei a todos que não chegassem perto do bolo de Augusto!” – fala para si em voz alta, chocada e estarrecida!

Nesse mesmo momento vê um caminho de barro… segue até a sala onde o caminho se encerra nas botas do marido, Bastião. Chegado da lida, todo enporcalhado está a comer vorazmente metade do bolo que cortara com o próprio facão. Boca lambuzada. Semblante de prazer.

“Ei muié, ainda bem que ocê chegô, venha logo… pegue essas bota suja e tire dus meus pé. Prepare meu banho pra dispois da janta, viu? Discarregue o caminhão que tá cheio di miô pras galinha. Aliás, dispois que ocê discarregá tudo ainda tem os bicho pra dá di cumê, tão na carroceria, us coitadu tão famintu. Mais aintis traga mais desse bolo que é hoje que vô me fartá. Parece que ocê adivinhô qui eu ia chegá uai! Hehehe” – Ria alto enquanto a pança balançava feito gelatina mole e a boca aberta cheia de bolo de chocolate pareciauma poça de lama.

Dona Julieta, num momento de fúria, saca a espingarda que o próprio deixara ao lado do banco da sala e cala aquela risada nojenta com um tiro no peito. O bolo mastigado cai da boca e mistura-se ao sangue.

Pela região ouve-se dizer que depois do ocorrido, o menino superou de imediato a “dor de amor”; voltara a frequentar as aulas normalmente e nunca mais comera bolo de chocolate.

Por Anamaria Moraes

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