Junho 17, 2009...4:40 am

Sinfonia de Helena

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cmetro

Ela correu apressada para a estação. Olhou para o velho relógio de pulso, suíço autêntico, comprado por dez pratas num brechó, único acessório que realmente usava. Sabia que, ou corria, ou perder-se-ia nos minutos e segundos que a atrasavam. Ah tempo maldito! Por que sua vida era controlada por aqueles ponteiros? Na bem da verdade, aqueles palitinhos móveis a citar o compasso de seus passos, eram seus inimigos! Desceu as escadas afoita e ao chegar ao guichê, uma fila enorme e sinuosa desenrolava-se até o fim do mundo e o fim dos tempos. Quando finalmente chegou sua vez, comprou seu mísero ticket de ida com as moedas já contadas para não perder tempo com troco e nem sorrisos de obrigada. Em passos largos, tal qual uma girafa desengonçada chegou finalmente à plataforma, derrubando sua mochila, desfazendo suas marias-chiquinhas, suada e cansada. O metrô acabara de partir. Desanimada e em total desespero, sentou-se no banco ali da plataforma para esperar o próximo trem. Para seu espanto ouviu um barulho tímido, não sabia bem o quê. Um som clássico e belo começara a ganhar força e a ficar mais e mais alto até que de repente, Helena percebe um aparelho celular ali, do seu lado, esquecido e jogado no banco onde estava sentada. Ela, que no seu Ipod ouvia um alternativo Indie Rock, tira os fones por uns instantes. Bem constrangida por aquele toque clássico que a comove, e que não faz idéia do que possa vir a ser. E a Nona Sinfonia continua a tocar… Tenta fugir, titubeia, mas atende. “Alô” – fala baixo, nervosa e sem graça. Do outro lado ouve-se uma voz grave: “Quem fala?”. “Errr…Helena, mas esse celular não é meu!”“Claro que não, é meu” – é logo interrompida. Alguns minutos (eternos) de silêncio. “Me desculpe, moça. Sou Daniel, estou ligando para meu próprio celular, o esqueci em algum lugar e ligo na esperança de encontrá-lo. Pode me dizer onde o achou”?“Sim, claro. Estou no banco da plataforma do metrô Consolação. Acabei de sentar e o ouvi tocar, atendi por conta da musiquinha esquisita, que me intrigou”“Esquisita? (risos) Então você não aprecia música clássica?”“Não muito. Na verdade não entendo desses lances de arte. É Mozart?”“Bethoven”“Ahhh”. Quinze minutos depois já estava ele lá, para buscar o aparelho. Daniel e Helena. Os olhares se cruzaram. Desde então permanecem no banco lado a lado, fone de ouvido dividido entre os dois. Abraçados. Ouvem atentamente ambas as melodias em total silêncio: Bethoven e o barulho dos trens ao passar pelos trilhos. Ouvem também descompassos de coração. Helena até esquece-se da hora. A música os leva além.

Por Anamaria Moraes

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