
Ela sentou na cadeira externa da cafeteria e abriu seu velho livro empoeirado. Fazia isso todas as tardes. Pedia um café, lia algumas páginas e ficava a observar os pombos pretos que catavam as migalhas na calçada. Às vezes pedia outro café. Ou simplesmente ficava ali, sentada, observando os pombos… numa viagem interna, sem saber muito o que pensar. Gostava quando a calçada estava molhada. E isso era um ritual na vida de Carolina. A cafeteria, o velho livro, os pombos, o pensar em nada… Numa tarde, enquanto pedia o café de olhos abaixados concentrada na leitura que nunca saia das mesmas páginas, ouviu para seu espanto: “A senhorita prefere seu café ao leite, tradicional, descafeinado, espresso, italiano, capuccino, mocha, ou simplesmente puro convencional?” Carolina ergueu o olhar, um atendente muito bem apessoado com o sorriso incomodativamente doce, simpático, cheio de dentes brancos esperando a resposta. Ela não sabia. Estava tão habituada a sentar, pedir um café, receber, beber, passar suas horas sossegadas e ir embora. Nem sabia que tipo de café bebia, na verdade, nem sabia que existiam tantas variedades assim de café no mundo. Queria sossego… café e sossego! “Olha, eu não sei ao certo, venho aqui todas as tardes e bebo o mesmo café, na certa aquele moço no balcão saberá qual é o meu.” – respondeu um tanto constrangida. Não concentrou-se mais no livro e os pombos pretos da calçada… ãh, que pombos?? “Aqui, senhorita. Seu café é o espresso tradicional da casa. Excelente escolha. Esse é apenas para quem sabe apreciar o paladar dos bons cafés. Aproveite! E qualquer coisa não hesite em me chamar, estarei logo ali. Me chamo Marcos. Com licença. ” – deixou a mesa com seu incomodativo sorriso nos lábios e um leve brilho no olhar. “Marcos” – ela pensou. Carolina obteve seu café como queria, porém não mais o sossego. E conta-se que todas as tardes uma moça ali sentava com seu velho livro, só que não mais do lado de fora para observar os pombos da calçada… mas do lado de dentro. E a cada dia um novo pedido: capuccino, café ao leite, descafeinado, italiano, chocolate quente, mocha, vanilla express… E a leitura nunca prosseguia.
Por Anamaria Moraes
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5 Comentários
Julho 23, 2009 às 2:51 pm
Romance, café…hum, e esse friozinho que tá fazendo aqui no sul…Linda crônica.
Bj.
Setembro 2, 2009 às 6:15 am
Nada como o trio: friozinho, café e romance, não é?
Agosto 10, 2009 às 1:44 pm
Parabens, suas historias sao maravilhosas! fiquei impressionada com a qualidade da sua escrita!
Setembro 2, 2009 às 6:15 am
Obrigada. Fico lisongeada.
Outubro 24, 2009 às 11:59 am
Que inspirador em Juliana!!!
Basta que alguém entre em nossas vidas para nos “incomodar” tirar o sossego. Por vezes é necessário que sejamos tirados da mesmice, nos faz ver, aprender e experimentar outras coisas que podem ser extremamente necessárias em nossas vidas. Ai Marcos…. que muitos desses apareçam em nossas vidas e possam nos dipertar em todos os sentidos de nossas vidas. Um abraço a todos, legal….