Abril 6, 2009

A beleza da tragédia!

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Com um pôr-do-sol estonteante e a vista privilegiada, esta ainda era uma tentativa de suicídio.

Frustrada, para o bem de todos!  : )

Daqui: http://www.flickr.com/photos/olhosatentos/3416422738/

Por Vanilla Express

Março 30, 2009

O bolo de chocolate

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Dona Julieta preparava o bolo. Entre uma olhadela e outra na receita, separava as claras da gema, batia a manteiga com o açúcar, reservava o pedaço do chocolate para o banho-maria.

O menino tinha febre, há dias faltava às aulas, não falava com ninguém, trancafiara-se no quarto.

Falaram em viajar para a cidade e passar pelo circo. Falaram em visitar Tia Candinha que morava no Rio de Janeiro. Falaram até em sair dali por algum tempo, só para ver se algo fazia efeito. Nada feito! Desde que chegara do colégio com um olho roxo há duas semanas, deitara na cama, começara a ler Machado de Assis e de lá não saíra para mais nada. O padre Horácio, responsável pelas aulas, fora chamado. Mas o coitado não sabia explicar. Aliás, sua paróquia servia para tudo, até escola.

Dona Julieta e as filhas mais velhas, Mafalda - a criada  e Pe. Horácio faziam de tudo para animar o menino. Nada adiantava!

Ele resolvera ficar ali, desolado, sozinho, quieto, sem ser aporrinhado! Até os banhos dona Julieta implorava para que tomasse, e vez ou outra nem isso ele fazia. Comia tão pouco, mas tão pouco que as costelas começavam a aparecer.

- “É dor de amor” – Disse com todo o conhecimento uma das irmãs. – “Na certa brigou por alguma rapariga”.

- Mas ele tem apenas treze anos! - Replicava a preocupada dona Julieta.

- E esses livros, o que contam? – Perguntava a curiosa criada da casa. -”Ah, são todos doloridos”. - “Falam de traição, e de como se sofre por amor”!- uma ou outra irmã respondia, fazendo com que a miserável ficasse sem entender o porquê alguém em melancolia leria livros que  cantam justamente a… melancolia! Um nó na cabeça de Mafalda. “Vou é esfregar o chão e cuidar da horta que ganho mais”! - pensava consigo mesma, a pobre!

Eis que dona Julieta resolve tomar uma atitude. Manda preparar o automóvel e vai até a cidade buscar o melhor chocolate da pequena bomboniere da Vila. Na volta prepara o bolo com todo o empenho com fé de que o menino finalmente se empolgue com algo, pois sabia, essa era uma de suas alegrias! O chocolate, a guloseima preferida…

Acende uma vela a Santa Rita e durante toda a tarde desenrola aquela receita complicada e demorada. O bolo, esse de chocolate, só se dava ao trabalho nos aniversários. dos filhos.  Porém, a fim de ‘adoçar’  os dias tristes de seu filho, dona Julieta prepara com empenho. Eperança de ver seu menino comer com gosto. Já o imagina devorando uma enorme fatia, deslumbra os sorrisos e abraços, todos contentes… termina a árdua tarefa e vai para o quarto rezar.

Volta para a cozinha, eis que vê o Bolo [que havia posto na janela para esfriar] com um corte todo torto, pela metade.

- “Não pode ser, avisei a todos que não chegassem perto do bolo de Augusto!” – fala para si em voz alta, chocada e estarrecida!

Nesse mesmo momento vê um caminho de barro… segue até a sala onde o caminho se encerra nas botas do marido, Bastião. Chegado da lida, todo enporcalhado está a comer vorazmente metade do bolo que cortara com o próprio facão. Boca lambuzada. Semblante de prazer.

“Ei muié, ainda bem que ocê chegô, venha logo… pegue essas bota suja e tire dus meus pé. Prepare meu banho pra dispois da janta, viu? Discarregue o caminhão que tá cheio di miô pras galinha. Aliás, dispois que ocê discarregá tudo ainda tem os bicho pra dá di cumê, tão na carroceria, us coitadu tão famintu. Mais aintis traga mais desse bolo que é hoje que vô me fartá. Parece que ocê adivinhô qui eu ia chegá uai! Hehehe” – Ria alto enquanto a pança balançava feito gelatina mole e a boca aberta cheia de bolo de chocolate pareciauma poça de lama.

Dona Julieta, num momento de fúria, saca a espingarda que o próprio deixara ao lado do banco da sala e cala aquela risada nojenta com um tiro no peito. O bolo mastigado cai da boca e mistura-se ao sangue.

Pela região ouve-se dizer que depois do ocorrido, o menino superou de imediato a “dor de amor”; voltara a frequentar as aulas normalmente e nunca mais comera bolo de chocolate.

Por Anamaria Moraes

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Março 7, 2009

Os Laranjas: Sr. Corno e Sra. Bagaça

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Imagem Original: Malaise-de-L-Orange

O Sr. Laranja chega em sua geladeira e encontra as vestes de sua esposa, a Sra. Laranjinha. Desconfiado vai ao departamento de frutas e então, eis o flagra: lá está ela peladinha  em atos suspeitíssimos com o safado do Sr. Banana, vizinho que sempre ouvira falar ser uma fruta de má índole. Quanta decepção! As outras frutas, amigos de longa data do Sr. Laranja logo se comovem e o tentam consolar, em vão! Infelizmente o Sr. Laranja vai para o bar afogar suas mágoas e decepçãoes na bebida. Pensamentos tão aleatórios e desajeitados passam por sua cabeça cítrica. Para ele a vida não faz mais sentido. Os amigos chegam em seguida, argumetam, tentam dizer que é apenas um momento ruim, mas já é tarde demais…

A decisão drástica já havia sido tomada… o pacato Sr. Laranja num ímpeto de frustração e desespero decide acabar com sua própria vida! OH NÃO!  Percebe que ali mesmo no bar há um enorme espremedor de suco e sem que ele mesmo perceba num único segundo, o salto mortal. Se joga, como se pulasse de um abismo:

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Ali, misturado com tantas outras laranjas faladeiras, pulantes e em pânico pela morte certa, Sr. Laranja é apenas mais uma delas, amarelo e redondo: irreconhecível! Mesmo o dono do bar, amigo, não percebe o ocorrido, não há tempo para salva-lo.  A máquina é rápida demais. Seus amigos-fruta, tentam em vão resgata-lo a todo custo em meio àquela população laranjal.

O pior aconteceu.

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Sr. Laranja fora servido naquela noite. Só se sabe que o suco de laranja foi o mais pedido e elogiado pela freguesia. ”Levemente amargo, com um fundo cítrico marcante, sem deixar de ser suave”, estranhamente é o que diziam.

Houve um funeral in memorian na geladeira, uma semana de luto e uma tristeza geral de toda a população de alimentos que lá vivia. Até os ovos, que têm fama de não ligarem para a vizinhança, andavam meio quietos de semblante sério. Tudo mudara desde a partida do Sr. Laranja.

Quanto a Sra. Laranjinha, ficara sozinha depois que o Sr. Banana fora banido da geladeira. Tentara um flerte com o Sr. Jabuticaba, novato por ali, mas desde que fora advertido, este nunca mais lhe dera liberdades. Por fim, com todos a ignora-la, já não tinha mais para onde ir. Restou-lhe apenas a gaveta das verduras, pior lugar dentro de uma geladeira: pouco refrigerado, úmido, sem espaço. Porém, sem alternativas Sra. Laranjinha mudou-se para lá, local onde acabou criando mofo e jamais conseguira fazer amizade. Uma bagaça!

Por Vanilla Express

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Fevereiro 27, 2009

Um pequeno instante de…

VIDA!

Não o deixe escapar.

Carpe Diem!

Carpe diem quam minimum credula postero
Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

;-)

Por Vanilla Express

Fevereiro 24, 2009

Te acalma Alma!

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Na busca incessante por calma

me perco nas entranhas inquietas

entrelinhas borbulhantes

turbilhão

estrelas cintilantes

ecoam

em minha alma

Mente a girar o mundo

sinto-me cair a esmo

num segundo

sem cessar

escuro…

Buraco sem fundo!

Quero adormecer sono profundo,

desligar o botão das inquietudes

o sono de Julieta por dias e noites

Ai de mim!

Salve-me senhor das trevas pensantes!

Deuses dos burburinhos que tomam o pensar.

enlouquecidamente vos peço clemência

E um pouco de paz.

Nesta minha urgência por calma

vou compondo versos inquietos

que galopam em meus verdejantes campos de sonho

Enquanto clamo:

“Aquieta-te, Alma!”

Por Anamaria Moraes

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Fevereiro 17, 2009

Será que temos esse tempo a perder?

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“Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não para…”     
(Paciência – Lenine)

E como o próprio diz na canção, a vida é tão rara. Será que nos damos conta disso? Ou no stress, correria e loucura desenfreada do dia-a-dia nem percebemos que um mundo de pequenas sutilezas e magnitudes  gira ao nosso redor? Para onde foi nossa capacidade de encanto? E nós? Nós somos pequenos universos, grandes milagres… tudo o que precisamos é nos perceber, observar, parar, respirar! Sentir-nos vivos! Há uma demanda de sobrevivência, mas esquecemo-nos que somos humanos, e podemos usufruir a vida com plenitude, prazer, alegria.

Esse vídeo a seguir é interessante pois demonstra exatamente essa despreocupação das pessoas consigo mesmas, ao mesmo tempo acaba sendo um paradoxo, já que foi filmada em slow motion. O tom é profundamente poético. Foi captado anonimamente por uma câmera comum e observa os anônimos deNew York City em seus afazeres diários. Vale parar uns minutinhos  para contemplar o quão caótico e belo pode se tornar uma metrópole em  pleno movimento. Agradeço à Vivian Tiemi pela dica.

 new_york  NYC – Slow Motion  

Nos falta um fazer propositadamente as coisas em “câmera lenta”, ou simplesmente diminuir o ritmo. Nos falta olhar pro céu e ver quando a lua está cheia. Nos falta saber o nome do vizinho e cumprimentá-lo no elevador. Nos falta ter um momento precioso conosco, seja num banho demorado, numa taça de vinho ao final do dia ou na música preferida tomando vento na varanda. Nos falta tanta coisa…

Finalizo com o clipe “Paciência” do Lenine, pois a letra além de linda demais é necessária! Dá vontade de parar tudo e de agora em diante, começar a viver de verdade!

Por Anamaria Moraes

Fevereiro 6, 2009

O Temporal e o Café Amargo

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 Photo:  Tiago Sozo Marcon

Aquela xícara de café espresso transbordava. Transbordava a espuma e as angústias da moça molhada pela chuva. Molhada e arrepiada pelo vento do metrô. Sentia frio. Frio por dentro, um frio escuro,  frio que dói, que atravessa a alma e para nas vísceras.

Perturbada com o movimento das pessoas ao redor, tomou num gole só o café que lhe desceu quente e grosso pela garganta. Queimando a língua, laringe e borbulhante no esôfafo, parou pelando no estômago, quase cuspiu de volta. Mas pensou consigo que merecia aquela dor, que merecia o amargo do café pois assim se sentia: amarga! E a dor da queimadura apenas trazia-lhe à tona sua dor interna. Uma lágrima rolou por sua face.

Esperou a chuva acalmar na esperança de que seus pensamentos em turbilhão acalmassem junto. Ouvia o barulho forte dos pingos batendo no chão, sentia a fúria da água. Sentia sua própria fúria. Os pensamentos tomavam conta, não davam-lhe paz! Queriam sair dela, domar o mundo.

Num rompante, abriu o guarda-chuva torto  pela rajada de vento que enfrentara e encarou o temporal novamente. Foi para debaixo daquela cortina de água avassaladora corajosamente. Sabia que somente isso a libertaria. Molhou-se por inteiro num segundo, chovia aos cântaros. A água batia em sua pele dolorosamente. O vento contra si era tamanho que quase não mantinha os olhos abertos. Num determinado momento, seu guarda-chuva foi engolido pelos céus. Determinada, andou até a estação de metrô e decidiu pegar outro rumo, que não o de casa.

Não sabia exatamente para onde. Fechou os olhos e apontou para um tópico do mapa, seguiu. Entrou no trem enxarcada, pingando. Sem saber ao certo o que estava fazendo e nem seus propósitos, mas preferiu não pensar. O turbilhão em sua mente cessara.

 Sabia apenas que a vida tem suas própria razões, que leva para caminhos desconhecidos por motivos que não se entende. E talvez, o próximo destino lhe reservasse um café menos amargo e uma chuva mais amena.

Por Anamaria Moraes

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Fevereiro 1, 2009

Depois do Jantar

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 Depois do Jantar

(Carlos Drummond de Andrade)

Também, que idéia a sua: andar a pé, margeando a Lagoa Rodrigo de Freitas, depois do jantar.
O vulto caminhava em sua direção, chegou bem perto, estacou à sua frente. Decerto ia pedir-lhe um auxílio.
— Não tenho trocado. Mas tenho cigarros. Quer um?
— Não fumo, respondeu o outro.
Então ele queria é saber as horas. Levantou o antebraço esquerdo, consultou o relógio:
— 9 e 17… 9 e 20, talvez. Andaram mexendo nele lá em casa.
— Não estou querendo saber quantas horas são. Prefiro o relógio.
— Como?
— Já disse. Vai passando o relógio.

— Mas …

— Quer que eu mesmo tire? Pode machucar.
— Não. Eu tiro sozinho. Quer dizer… Estou meio sem jeito. Essa fivelinha enguiça quando menos se espera. Por favor, me ajude.
O outro ajudou, a pulseira não era mesmo fácil de desatar. Afinal, o relógio mudou de dono.
— Agora posso continuar?
— Continuar o quê?
— O passeio. Eu estava passeando, não viu?
— Vi, sim. Espera um pouco.
— Esperar o quê?
— Passa a carteira.

— Mas…

— Quer que eu também ajude a tirar? Você não faz nada sozinho, nessa idade?

— Não é isso. Eu pensava que o relógio fosse bastante. Não é um relógio qualquer, veja bem. Coisa fina. Ainda não acabei de pagar…

— E eu com isso? Então vou deixar o serviço pela metade?

— Bom, eu tiro a carteira. Mas vamos fazer um trato.

— Diga.
— Tou com dois mil cruzeiros. Lhe dou mil e fico com mil.
— Engraçadinho, hem? Desde quando o assaltante reparte com o assaltado o produto do assalto?
— Mas você não se identificou como assaltante. Como é que eu podia saber?
— É que eu não gosto de assustar. Sou contra isso de encostar o metal na testa do cara. Sou civilizado, manja?
— Por isso mesmo que é civilizado, você podia rachar comigo o dinheiro. Ele me faz falta, palavra de honra.
— Pera aí. Se você acha que é preciso mostrar revólver, eu mostro.
— Não precisa, não precisa.
— Essa de rachar o legume… Pensa um pouco, amizade. Você está querendo me assaltar, e diz isso com a maior cara-de-pau.

— Eu, assaltar?! Se o dinheiro é meu, então estou assaltando a mim mesmo.

— Calma. Não baralha mais as coisas. Sou eu o assaltante, não sou?

— Claro.
— Você, o assaltado. Certo?
— Confere.
— Então deixa de poesia e passa pra cá os dois mil. Se é que são só dois mil.
— Acha que eu minto? Olha aqui as quatro notas de quinhentos. Veja se tem mais dinheiro na carteira. Se achar uma nota de 10, de cinco cruzeiros, de um, tudo é seu. Quando eu confundi você com um, mendigo (desculpe, não reparei bem) e disse que não tinha trocado, é porque não tinha trocado mesmo.
— Tá bom, não se discute.
— Vamos, procure nos… nos escaninhos.
— Sei lá o que é isso. Também não gosto de mexer nos guardados dos outros. Você me passa a carteira, ela fica sendo minha, aí eu mexo nela à vontade.

— Deixe ao menos tirar os documentos?
— Deixo. Pode até ficar com a carteira. Eu não coleciono. Mas rachar com você, isso de jeito nenhum. É contra as regras.
—  Nem uma de quinhentos? Uma só.
—  Nada. O mais que eu posso fazer é dar dinheiro pro ônibus. Mas nem isso você precisa. Pela pinta se vê que mora perto.
—  Nem eu ia aceitar dinheiro de você.
— Orgulhoso, hem? Fique sabendo que tenho ajudado muita gente neste mundo. Bom, tudo legal. Até outra vez. Mas antes, uma lembrancinha.

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Sacou da arma e deu-lhe um tiro no pé.
(…)
Texto extraído do livro “Os dias lindos” – Ed. Livraria José Olympio. Rio de Janeiro, 1977.

Janeiro 30, 2009

Ensaio sobre a Cegueira

Site Oficial -> Ensaio sobre a Cegueira - Filme adaptado do livro de José Saramago

Chocante!  Define-se numa avassaladora palavra. Sim, porque ele choca. Um filme que mexe com as entranhas do sentimento humano. A cegueira branca nos incomoda! Depois de assistir não saímos da sala de cinema (ou do sofá com o bowl de pipoca ) as mesmas pessoas. Ficamos reflexivos, intensos, perturbados. Olhamos pela janela, andamos pela casa… voltamos para a janela, apreciamos o burburinho da cidade e percebemos tudo o que nossos olhos relatam: uma dura, fria, suja, insana e severa realidade.

Após a experiência louca de assistir ao Ensaio ninguém mais será o mesmo! Os valores mudam, ou, permanecem itactos, porém nos indagamos sobre eles.

Em debate online com @Caco, que também acabara de assistir ao filme, concordamos que lá pela metade Ensaio perde um pouco da metáfora inicial,  porém recupera-se majestosamente e então vem o “tapa na cara” que não estávamos esperando. E aí é que começa a abalar nossos sentidos mais profundos.

A fotografia do filme é algo maestral. A maneira como trabalha a luz é uma experiência sensorial, nos faz sentir a cegueira. Mexe por dentro. Perturba incomodativamente.

 Me permito usar as peculiares palavras de @Cacocuja sensibilidade soube captar a essência que o filme transmite nas entrelinhas: “Olha pra onde vão os valores pros quais vocês dão tanto valor!” …  E isso acontece porque a sociedade no fundo, é hipócrita. Nós, em nossos mundinhos umbiguistas somos sim, egoístas. Egocêntricos, até! E é exatamente isso que nos incomoda tanto assistindo ao filme.

 Em meio a um surto de cegueira, a situação é desesperadora: sobreviver! Os valores vão para o ralo e passa a valer o “olho por olho, dente por dente”.  Toda a civilidade acaba, aliás, tudo aquilo que torna a humanidade HUMANA, deixa de existir e as pessoas passam a comportar-se feito bichos famintos e sem noção de dignidade, compaixão, solidariedade, e tudo aquilo que tanto se preza.

Em contrapartida, há um grupo que se une justamente por esses valores. É o que os deixa lúcidos, é o que os faz permanecerem vivos. Sobrevivem por ajudarem uns aos outros. Porém vem novamente o  ”tapa na cara”,  pois a cegueira nada mais é do que um subterfúgio para essas pessoas cujas vidas são tão vazias, que a usam como pretexto, como escudo, como aliada, como confidente e amiga. Ou seja, ali naquele grupo, a cegueira é uma boa companheira.

E sem ela, o que fariam? E se voltassem a enxergar num estalar de dedos? Como seria sem sua cúmplice cega? E se o mundo voltasse ao normal num piscar de olhos e todos aqueles “bichos” voltassem a ser humanos novamente?

Por Anamaria Moraes

Janeiro 25, 2009

Bagagens da Vida!

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Ilustração: Victor Salciotti

Era setembro de 2004 quando ela chegou na rodoviária do Tiête. Na mala, suas roupas, alguns livros relidos, cds antigos, uma carta da mãe e sonhos, muitos!

Uma Santa para proteção. Saiu do ônibus e assustou-se com aquele oceano de gente, talvez ali existissem mais pessoas que na ciadezinha de onde viera e deixara para trás. Confusa, foi até o orelhão mais próximo e ligou para que o namorado viesse buscá-la, mas não conseguia completar a ligação. Naquele vai e vem de gente com sacola na cabeça, criança no colo, mochilas, mudanças inteiras…pessoas de todos os tipos, etnias, cores, asustou-se e começou a chorar. Um choro sentido, doído. Como se a rodoviária a engolisse. E por eternos 40 minutos esperou e esperou. Viu a frieza longínqua no olhar vazio dos que passavam por ela. Poucos a olhavam e percebiam suas lágrimas. Um único senhor parou e ofereceu ajuda, ela se acalmou por um instante.

Pensou que tudo estava perdido, pois de tão tola nem anotara o endereço do namorado, então aquele senhor de boa vontade, sem mais o que  fazer foi embora. E ela continuou seu pranto solitário. Quanrenta e cinco minutos exatos de solidão, medo, desespero e agonia. Quando avista o namorado. O abraça forte, porém com raiva: “Por que você fez isso comigo?”

Ele lhe explica que as coisas ali naquela cidade enorme eram assim mesmo: demoradas, cheias de gente, tumultuadas… que aquele, fora o tempo dele tomar o metrô! Novidade para ela que jamais vira um trem subterrâneo ultra-rápido transbordante de seres humanos amontoados. E depois prédios, um mar de prédios. E mais gente, e mais prédios! Demorou para que ela entendesse o que era São Paulo.

Viera duma cidadezinha de interior, lá no Sul do país onde se vai à missa todo domingo na única igrejinha da cidade e se ouve o ecoar do sino a cada hora. Almoça-se ao meio-dia em ponto todos os dias da semana e se passeia pela pracinha  aos sábados. Cumprimenta-se o Sr. João da Farmácia, o Antônio da padaria, a Márcia da verdureira. E todos dizem bom-dia quando abrem suas janelas floridas pela manhã.

Ela demorou para se adaptar, muito! Ficou deprimida, teve essas crises de pânico e medo de sair do apartamento. Hoje, quase cinco anos depois, já entende melhor que “bicho” é esse chamado Sampa e até se vira bem por aí: trabalha, faz seus cursos, anda pra lá e pra cá! O metrô virou seu meio de transporte: rápido e prático. Adora as comodidades e facilidades que a cidade grande oferece e se esbalda nos eventos culturais, sua paixão. E nem se incomoda de ir sozinha aos museus/cinema/exposições de que tanto gosta.

Visita sua família no interior sempre que pode, mas se alguém lhe perguntar se ela quer voltar… ahh provavelmente a garota dessa história vai dizer que a metrópole lhe deu asas…e ela está aprendendo a voar.

Pra bem longe…

Por Anamaria Moraes.

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